segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

De bicicleta

Esse aperto no peito, esse medo do desconhecido, some quando? Minha coragem me acompanha sempre só até um certo ponto. Ela me leva até a beira sempre, me faz falar, me faz fazer, me faz me jogar e decidir pelo instinto sem pensar duas vezes. Mas depois do pontapé inicial, ela fica pra trás me dando tchauzinho como quem ensina uma criança a andar de bicicleta. Tirei as rodinhas há tempo, e a toda oportunidade me proponho a seguir pela rua mesmo sabendo que a coragem largou o guidão daquela ideia faz horas. Eu tento, mas quando é que eu realmente vou aprender a me equilibrar nessa bicicleta?

Vou cambaleando, em zigue zague, louca de medo, porém sem fechar os olhos para não perder o rumo ou a paisagem. Caio, ralo o joelho, o orgulho, o coração. Fico cheia de roxões doloridos e outros machucados que não se pode ver a olho nu. Mas não desisto nunca da minha bicicleta. Um dia eu aprendo, um dia eu descubro o equilíbrio, ou instalo um bagageiro para carregar minha coragem junto em cada projeto novo, em cada aventura nova, por que é impossível para mim pensar em não fazer o novo, sempre. O jeito é aprender a curtir o vento no rosto antes da próxima queda.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Com a Europa em um bote salva-vidas


Parece que é por isso que os europeus clamam: por um capitão que não abandone o barco. Esse naufrágio acaba sendo um triste emblema dos problema do País 




"Vada a bordo, cazzo!" 

A frase dita pelo capitão Gregorio De Falco, da Guarda Costeira italiana, para o irresponsável capitão Francesco Schettino ao ordenar que ele voltasse ao navio naufragado na costa da Itália já está estampada em camisetas naquele país (pelo menos é o que me conta o G1) e parece ser um slogan da necessidade da Europa - e da Itália - neste momento: um capitão que não abandone o barco depois de fazer uma cagada tentando ser simpático com os amigos e esquecendo de quem deveria cuidar.

Parece que o naufrágio se tornou uma triste alegoria para o que está acontecendo na União Européia: algo que era sinônimo de luxo e riqueza, no qual muitos sonharam entrar, e que hoje afunda economicamente por manobras perigosas em mares incertos, capitaneado por quem só pensa em salvar a própria pele. O pedido deles serve para nós aqui no Brasil também: mais capitães como De Falco e menos como Schettino, porque como bem ameaçou o capitão-herói, você até pode se salvar do mar, mas a realidade depois que alcança a terra firme pode ser bem cruel quando a punição chega. E eu espero que ela venha.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

(Des)encanto

E de repente a gente começa a desencantar. Passa tanto tempo pensando que é melhor não iniciar a conversa que acaba sem ter o que dizer, sem ter sobre o que falar. E você se percebe apenas uma alternativa para quando o outro não tem nada melhor a fazer nem ninguém melhor a procurar. E você passa a ser digno de muito pouco, de uma mensagem entre tantas outras no Facebook, de um torpedo na fila do super para passar o tempo. Você se sente ignorado, e nem sabe mais se quer que prestem a atenção em você. O encanto passa - todo encanto passa - e fica só aquela vontadezinha de um pouco de contato, aquele costume do conforto e do calor.

Encantamo-nos com inúmeras coisas e pessoas ao longo do tempo, e são esses encantamentos que mais nos decepcionam. Prever a decepção ajuda a se ver bem onde estamos metendo o pé, mas pensar em como elas serão e quando ocorrerão antecipa o fim do encantamento. Há coisas das quais me desencanto na hora, e outras, com as quais demoro a me decepcionar - seja porque não me decepcionam mesmo, seja porque não espero demais -, e leva muitos e muitos anos para que este encantamento chegue ao fim. Mas ele chega. É pedir muito querer curtir ao máximo enquanto o encantamento dura? É pedir muito querer cegar o julgamento só por um instante para que nesse instante o encantamento não pareça ter fim?

Vou pedir para me encantar com algo pro Papai Noel, mas algo pelo qual valha a pena me encantar. Não ouso pedir um a prova de aborrecimento, acho que isso não existe, até a coisa mais interessante e incrível já inventada uma hora cansa - tá aí a Internet que não me deixa mentir. Mas um encantinho de vez em quando, um sonho, uma viagem, um filme, um alguém, qualquer coisa que encante e provoque suspiros é algo que deveria estar na lista de desejos de todo mundo. Um encantinho qualquer que dure mais do que o tédio da fila do caixa. Um encanto pelo qual valha a infalível decepção.


Imagem: sxc.hu

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Curiosidade



Eu sou uma pessoa extremamente curiosa. A curiosidade me consome por dentro como uma pequena formiguinha que se infiltra em mim pelo dedo do pé e vai tomando conta da minha vontade e, quando menos espero, virei um formigueiro de pura vontade de saber. Estou lutando contra a minha curiosidade porque sempre que ela precisa ser sanada por uma pergunta direta, por algo que não há rede social ou google que responda, ela estraga tudo. Sim, a curiosidade é quem estraga, não eu. Sou refém dela e resistir é sempre muito difícil. Meus dedinhos coçam pra escrever “mas vem cá, como é mesmo que ....” mas eu me seguro. Eu me controlo. Eu me agarro firme na borda do colchão e espero a vontade passar. Mas ela não passa, e a morbidez da questão atiça ainda mais minha curiosidade como a um tubarão faminto, e a vontade de saber é quase maior que meu autocontrole. 


Essa coisa de se ter licença para ser enxerido mal-acostuma o vivente, faz a gente pensar que pode perguntar o que quiser para quem for, o importante é saber, ter a informação. Pertenço àquela raça maldita que pensa que tem o direito de saber, sempre, não interessam as consequências. Afinal, eu preciso saber onde me meti, não preciso? E com pegadinhas mentais engano a mim mesma e quase escorrego em perguntar “vem cá, está tudo tranquilo mesmo?”.  Perguntar ofende, ou que é pior, dá a entender o que não é. E o que era só curiosidade vira uma sentença para quem ouve a pergunta, uma declaração de que talvez você precise saber o que as coisas significam no mundo e de que suas intenções por trás daquela pergunta podem ser mais perversas ou profundas do que se está preparado para encarar. Curiosidade é um bichinho perneta com uma dúzia de olhos azuis arregalados que assustam a qualquer um e destroem a base da confiança entre as pessoas. Contudo, sem curiosidade nunca nos interessaríamos pelo que o outro é, pelo que o outro faz e pelo que o outro pode ser. Retorço-me de curiosidade, mordo os lábios e reviro os olhos, mas dessa vez escolho não saber.

Para fins de direitos autorais de imagem declaro que as fotos usadas no post não são de minha autoria e que os autores não foram identificados.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Daydream

Passei o dia tentando não lembrar do sonho que tive, passei o dia fugindo do que tinha para fazer. Passei o dia fugindo de mim mesma, e dessa melancolia que me acompanha quando eu mais quero sorrir. Sonhei acordada - e nisso não há nada de novo - que terei de aprender a lidar com mais e mais quilômetros de saudade, com milhas e milhas na verdade. Sonhei acordada e me vi voltando só, e ri, porque por mais que doa só de pensar, ri, porque seria o final mais  clichê possível pra essa vida de série americana que de repente aconteceu. Outros caminhos mais próximos me aparecem, e a melancolia volta disforme, me faz escrever sem rumo, digitar e apagar e digitar de novo, guiada apenas pelos sons das teclas e pelo cheiro dos meus sonhos - os que sonho dormindo e os que sonho acordada, todos devaneios, nenhum projeto ou vontade. 


Dos sonhos que sonho dormindo tenho medo, muito medo; revelam a mim mesma mais do que eu quero saber de mim, dos meus quereres, dos meus medos, dos meus arrependimentos. Parece que meus sonhos - os que ocorrem enquanto durmo - querem ir sempre ao contrário dos sonhos que vejo diante dos meus olhos abertos. Crio historinhas, sigo roteiros, dou gargalhadas com amigos que mudam de face a todo o momento. E a história que creio que ainda vou viver - e as histórias que creio que verei os outros viverem - se descortinam em meus banhos e silêncios como sessão da tarde, ocupam meu tempo e consomem minha energia, como se vivesse numa loucura. 


Quem me garante que ainda estou sã? Quem me garante que isso tudo não é uma ilusão, quem garante que eu não tenha surtado há muito tempo e viva num faz-de-conta sem fim? Quem garante que você está em controle da sua vida, e que tudo que pensa que vive está mesmo vivendo, e tudo que pensa que escolhe está mesmo escolhendo? A loucura, pelo que sempre me ensinaram, é o estado em que se acredita que se está vivendo aquilo que só existe na nossa mente. Quem garante que nossos devaneios são os devaneios, e que a realidade é a realidade, e não que o devaneio na verdade é a realidade e a realidade, na verdade, o devaneio? Mas isso são só pensamentos...


Imagem: sxc.hu

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Coragem?


“Achei que não terias coragem”. A frase ainda ecoa em mim. Coragem, era isso que me faltava? Faltava certeza, faltava frieza, faltava coragem. Coragem de encarar a solidão que já era minha, mas que eu fingia não existir. Coragem de encarar que isto que eu sinto está em mim e não em outro alguém, que ninguém vai tirar esta sensação de mim, apenas eu mesma. Não importa onde eu esteja, com quem eu esteja, como eu esteja, desde que eu seja feliz. Nunca pude reclamar da minha vida, sei que ela tem sido um mar de rosas em comparação ao resto do mundo. Poucos tropeços, e mudanças apenas as pensadas e aceitas por mim. Não reclamo. E por isso mesmo encaro como responsabilidade única minha ser feliz ou não. O universo me deu todas as condições de viver plena e contente, e a isso eu agradeço. 


Apenas noto que vivo em busca da sensação máxima, da felicidade suprema, da alegria que de tão grande dói. Mas enquanto eu viver assim, flanando, em paz, somente a paz me virá, nunca sensações extremas. Extremidades precisam de outras extremidades para manter o equilíbrio, e enquanto eu evitar o risco, evitar a dor, evitar tudo, nada ocorrerá. Sei que preciso aceitar riscos e me jogar ao que me é possível viver, mas minha racionalidade pede que eu resolva tudo antes de fazer. Será que algum dia as coisas estarão resolvidas? Vou ali resolver o mais concreto e esmagador atualmente, não dá para negar e realmente preciso dessa pendência acertada. Mas logo depois, não respondo mais. Juro que sumo, me deixo ir aos sabores. Juro que vou. Será que terei coragem? Desafia-me, e verás.


Para fins de direitos autorais de imagem declaro que as fotos usadas no post não são de minha autoria e que os autores não foram identificados.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Grito

Senti o grito amargo se formando pela minha garganta, e naqueles dois segundos de espera por sua saída não consegui encontrar forças para o conter. O grito me transbordou, deu forma a toda a raiva reprimida, a toda a frustração trazida por uma confirmação nefasta, a todo o horror de assistir um mundo ir para a sarjeta.
Frustração e arrependimento, arrependimento pelo reprimido, pelo que não foi vivido, pelo que se deixou passar. Passou do tempo, e muita coisa passou nesse tempo; a mágoa que não quis sentir me ataca sem piedade, se forma como uma bola gosmenta de pus e ódio externada num único grito. Um grito de raiva, pura raiva, sem dor, sem pena, somente frustração, como se uma lealdade póstuma houvesse sido traída, como se ainda fosse possível esperar ser algo do que não é. E neste dia de finados revisito minhas desilusões, saúdo o finamento do que um dia foi. Busco o renascimento, e deixo raiva, desgosto e desilusão se perderem no ar, como os ecos de um grito forte se perdem no firmamento.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O exercício de sermos nós mesmos

Estou com vontade de me jogar ao vento e não estou nem aí se haverá alguém para me segurar. Quero sentir essa sensação, perceber a brisa, me deixar levar ao sabor do ar. Estou disposta a viajar milhares de quilômetros para passar duas horas com alguém, mas que essas duas horas valham uma vida. Estou disposta a aceitar o inaceitável, e acreditar no inacreditável, só para saber como é. Foram 25 anos jogando conforme as regras, ouvindo todos os conselhos e me preservando de todo o mal.  Criei uma base sólida de segurança e certeza para mim - agradeço, é muito bom se sentir segura -, mas sobraram tantos tijolinhos e tempo que há um belo muro a minha volta. Gosto do meu murinho, mas agora estou com vontade de sentar sobre ele e ver o movimento da vizinhança enquanto balanço meus pés, pronta a pular para a calçada ao menor aceno amigo. A casa vai continuar fechada, como convém, mas o que tem ali adiante?

Devemos agradecer profundamente por tudo que nos aconteceu até o minuto anterior ao que vivemos agora e nos fez o que somos, e eu agradeço, sempre, sempre, e muito. E justamente por tudo que vivemos e para as coisas as quais nos preparamos, o tempo todo,  que devemos nos entregar às novidades, aceitar o que está por vir, e aceitar que tudo vai dar certo, o que quer que seja o tudo, o que quer que seja o certo.

Nos jogamos com uma facilidade bárbara a um novo trabalho, a uma nova oportunidade, a um cargo, a uma posição, a um salário (pelo menos no início da carreira profissional, é só o que conheço). A grana  no fm do mês nos dá a medida, sabemos o que ele proporciona e facilmente fazemos contas que medem prós e contras. Viajamos milhares de quilômetros para um entrevista de 30 minutos, para um concurso de uma manhã. São um pequeno amontoado de minutos que definirão rumos na nossa vida, e encaramos isto com grande naturalidade e estamos sempre atrás, investindo nessa oportunidade. Por que não se encara da mesma forma nossas vontades, nossos lazeres, nossos prazeres, nossas paixões, nossos sentimentos?

Por que todo mundo tem tanta dificuldade em investir tudo por seus sentimentos, justo os sentimentos, que estão dentro da gente nos acompanham implacavelmente a cada respirar? Por que complicamos tanto e nos colocamos tantas questões antes de encarar o que queremos sentir de verdade, por que tantos porquês antes de corrermos atrás de nossa fruição? Talvez tenhamos dificuldade em ler o que sentimos de verdade, lá dentro, bem no fundo e com todo aquele contexto de traumas, sentimentos mal curados, frustrações e medos; talvez seja dificuldade em saber exatamente o que se sente com relação às coisas, ou descofiamos deles porque eles se modificam tanto, nossa, como se modificam. 

Decidi aprender a me entender e me ouvir melhor, sentir o que sinto de uma forma mais clara e simples. Está dando certo; dói, mas dá certo. Claro, tem que se abrir mão do jogo, do "não vou ligar", "vou esperar que puxem conversa comigo, não vou eu iniciar a conversa", "o que vai pensar se eu disser isso?" e todas as outras questões que nos impedem de sermos nós mesmos, ou de descobrirmos o que é ser nós mesmos. É um exercício diário, certamente, pelo menos até entrar no automático. Mas é como qualquer exercício: o resultado provavelmente vai valer a pena.

Para fins de direitos autorais de imagem declaro que as fotos usadas no post não são de minha autoria e que os autores não foram identificados.

domingo, 23 de outubro de 2011

Origens e destinos


É incrível o que um pouco de álcool pode trazer. Uma saudade do que não se viveu, uma necessidade do que não se tem, e uma noção tão clara das origens como nada na vida. As origens não são minhas, mas elas também estão lá. Poderia ter passado minha vida inteira sem saber direito que origem era essa; como a tenho, não tenho como negar nem me sentir alheia a ela. Posso passar o presente sem conhecer o futuro, mas ele não deixa de estar lá, de existir. Pertenço aquele lugar de origem, da mesma forma como pertenço às experiências que ainda terei, por mais que ainda não as tenha tido. Já disse e repeti milhares de vezes que sinto como se tudo já estivesse escrito – meant to be – por mais que ainda não saiba o que é. Não adianta lutar com o futuro, ele é o que é. 

Entretanto, quando enxergamos uma fresta do que pode ser, nossa, como é difícil esperar, não é mesmo? Um mundo de sensações nos espera, mas quando? Quando os deuses quiserem, e eles não são corruptíveis, benditos deuses. Nada que eu lhes ofereça em troca os faz encurtar o tempo ou diminuir as distâncias. Acredite, tentei. Aceito, e embebedo-me pensando no passado que me faz quem sou, e o futuro que define quem serei. Vivo um presente de expectativa, e aprendo a atravessar a selva que rodeia a todos nós. Onde estarás? Onde estarei eu? Não espero de braços cruzados, mas espero. Paranoica, como sempre, imaginando mil mazelas, manipulações, psicopatias e violências das quais posso ser vítima, e ainda assim quero pagar para ver. Quero pagar para viver. Evito os perigos, é da minha natureza e é da natureza de todos nós, mas não vou deixar os medos me paralisarem. Deixo o medo pro medo, arrumo o quarto, visto minha melhor cara e vou para a rua. Qualquer hora dessas a gente se encontra, eu e meu destino, esse inexorável ser sem face que nos espreita e determina a cada momento, e que muda a cada bater de asas na primavera. Outubro veio e deu continuidade a setembro, não o fez sumir. Isto é diferente. O meu destino deve ser também. E que novembro seja doce, como só ele sabe ser.

Imagem de autor não identificado.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Pra baixar a guarda

E quando a gente menos espera, frases bobas do Facebook dizem tudo que a gente precisa ouvir. E quando estamos nessa fase é porque estamos com todas as condições de seguir em frente. Um pensamento bobo e pá, tudo muda. Um compartilhamento atribuído a um poeta ou um ator, e a sua vida passa a fazer sentido ou simplesmente perde o sentido e precisa de novos rumos. É assim. O acaso nos encontra quando estamos distraídos, e cruzamos caminhos de quem nunca imaginamos ou cruzam nosso caminho - pessoas, ideias, frases de efeito - quando menos esperamos e, por isso mesmo, estamos com a guarda baixa. Quem sabe é isso que nos falta, baixar a guarda e deixar a vida fluir ao nosso encontro, deixar sentir as ondas dos acontecimentos como uma criança sente as ondas do mar antes de dormir depois do primeiro dia de praia no verão. Baixei a guarda, e descobri que o mundo é bem mais colorido e cheiroso do que eu lembrava. Pode ser a primavera, pode ser o pedido por uma mudança econômica e nas formas de produção lá nos gringos. Pode ser nada disso. Mas que tudo parece mais intenso e saboroso porque eu não sei o que vem por aí, isso parece. O amargo também é mais amargo, mas só a dor profunda oferece equilíbrio ao sublime. Ter o caminho cortado pode parecer um aborrecimento, mas sorrir para o acaso pode ser bem divertido. E que cada esquina seja de expectativa, e que as esquinas sejam muitas.

sábado, 15 de outubro de 2011

E se...?


       Toda escolha vem com uma pulga atrás da orelha. Por maior certeza, o tempo sempre traz um “e se”. A vida é feita de e-ses. E se eu tivesse comprado aquela blusa, e se eu tivesse feito aquele curso, e se eu não tivesse voltado, e se eu não tivesse partido? Para cada se há um universo diferente que poderia ter acontecido. O mundo é uma construção dos e-ses de todos nós, que vão se somando e dando a cara do mundo como ele é. Para cada escolha que cada um faz, um dominó enfileirado de coisas passa a acontecer e outra fileira deixa de cair; nossas peças colidem com os jogos de outras pessoas e novos efeitos vão se fazendo e mais e-ses vão surgindo, para mim, para ti, para os outros, para o todo.

       E se...? É uma boa pergunta, e eu provavelmente sei a resposta. Infelizmente – ou felizmente, vai saber – tenho que explorar este se que decidi seguir. Derrubei o dominó pro lado contrário do que imaginava que iria derrubar,  e desta linha não conheço o final. Vamos ver quantas peças caem, e a que velocidade. Estarão elas bem próximas e tudo será acelerado, ou estarão elas a intervalos longos, tornando o caminho mais demorado? Podem ainda voltar ao ponto de partida e então derrubar a primeira peça do dominó que desisti de empurrar. Quem sabe as voltas que este mundo dá e as borboletas que baterão asas no outro lado do mundo? Só sei que foi necessário um peteleco para desencadear a aceleração de consciência como gosto de chamar. E essa amplitude me faz ver mais, ver além, e também me faz não querer saber tanto do porvir. Deixa eu viver uma semana de cada vez, um mês a cada mês, e depois eu penso no depois. Não que eu queira virar imediatista, mas um pouco de imediatismo não faz mal algum ao presente. Um dominó de cada vez, cada peça a seu momento.

sábado, 8 de outubro de 2011

Da série (não) Conto: Louça pra lavar

Ela encarou a pia de louça com bravura. Independente de ter sido ignorada durante todo o almoço, independente de ter preparado todos os acompanhamentos e os quatro tipos de sobremesa, independente de ter trabalhado 50 horas naquela semana, independente da unha encravada e a maldita gastrite, independente de tudo, ela estava ali, relegada a passar a sesta do domingo lavando louça, mas estava tudo bem. Ela se convencia de que estava tudo bem, estava tudo muito bem, como sempre esteve. Tinha sua casa, amigos cordiais e todos admiravam suas prendas e dedicação ao lar. Era exemplar como queria ser. E enquanto esfregava com afinco uma travessa e ouvia a chaleira chiar, dizia a sim mesmo “está tudo bem, está tudo como planejado, está  tudo muito bem”.

O encontro entre amigos deu-se brilhantemente. Acordou cedo, deu os toques finais na casa, providenciou pão fresquinho e deu início a boa e velha maionese ensinada pela avó. Antes das 11h a “turma” – que não era sua, mas quem tem tempo de ter uma? – começou a chegar, e ela recebeu a todos com um “ele está levantando e já vem”. A tudo sorria, havia escolhido e gostava de sua pose de dona de casa moderna, trabalhadora prendada. Mesa posta, pudins e tortas desenformados, risos a todos os lados. Ela sorria, mas nem sabia por quê.  A cena era a de sempre, exatamente como havia sonhado. As alças de guardanapos, a coberta de mesa, os talheres muito bem selecionados. Estava tudo bem.

A chaleira ferveu, e inebriada de pensamentos ela derramou o líquido borbulhante sobre a louça. De tão envolta em si mesma e em como havia desempenhado bem seu papel de esposa dedicada, demorou a perceber que sua mão esquerda estava entre a louça e o líquido. Um grito de horror e ódio fez transbordar a dor que sentia de uma só vez. As lágrimas brotaram em profusão, e palavrões que ela há muito não pronunciava saíram aos borbotões.

O marido só veio à cozinha depois de ouvir o quinto copo quebrar. O som de vidro estilhaçado repetido cinco vezes quer dizer mais do que uma repentina estabanação; o barulho do inox das panelas estridente no contato com o chão definitivamente exigia que ele agisse. Foi recebido à porta por um prato voador, que se espatifou na parede ao seu lado. Ele ficou imóvel e olhava estupefato os pedaços de louça branca que se espalhavam a seus pés.Tudo havia estado muito bem por muito tempo, e ela não aguentaria mais aquilo.


***
Notinha da Ali: outro dia um amigo me disse que DR e uma pia de louça suja são coisas que não se combina, e a imagem disso gerou esse texto. Deixei ele quieto por um bom tempo até ver no clipe de Rolling in the deep a imagem traduzida da minha louça quebrada. Era o não-conto pedindo pra ir à rua. Dá play!

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Ao encontro de mim


Eu te ouvi falar aventura e arrumei minha mochila. Te espero na porta de casa de chapéu na cabeça, lenço no pescoço e alguns pares de meias na bolsa. Não sei para onde vamos, nem quero saber. Apenas vou, e deixo para trás um bilhete de até breve. Volto, volto mesmo, mas não volto a mesma. Quero ir encontrar o que não fui, mas o que ainda posso ser. Vou, por um dia ou dez, para voltar com outros ares no pulmão e outros olhares no olhar. E pela primeira vez não tenho medo do que vão dizer ou pensar. Alguém paga as tuas contas? Nem as minhas. Vamos, te espero pronta; só me deixa passar um batom.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Temporal de São Miguel


É claro que havia de chover. São Miguel no 29 sempre nos banha depois de uma longa tarde de calor. Lembro os aniversários do meu primo, sempre muito divertidos, e invariavelmente chuvosos. Sabíamos todos disso, e por isso brincávamos feito doidos enquanto o temporal não vinha, usávamos o muro baixo entre o pátio da frente e o vizinho como rede de vôlei – assim as gurias também poderiam brincar – e corríamos entre brigadeiros, bolas e flashs. E o temporal vinha, e todos diziam que era assim, sempre foi, no aniversário dele. Hoje não foi diferente, mas eu estou longe, e já não vejo mais meu querido irmão que foi meu melhor amigo durante anos. Porque nos afastamos tanto de quem amamos? Porque perdemos a oportunidade de abraçar mais uma vez quem queremos bem? Porque deixamos para depois um reencontro que pode ser agora?

Sinto falta da nossa infância, e do terreno baldio onde caçamos vagalumes algumas vezes. Sinto falta das noites de calor as quais te associo, e os invernos frios em que nos escondíamos com o videogame. Sinto falta de uma infância que foi minha e compartilhei contigo, e que me deu um senso de solidariedade e nerdice sem igual. Vivíamos situações muito parecidas, origens muito próximas apesar de desenrolares muito diferentes, e acabamos em rumos tão distantes. Mas quanto mais eu ando, mais eu quero voltar e viver novamente aquelas tardes em que enganávamos a chuva e torcíamos pela misericórdia de São Miguel, para que o primeiro calor de setembro fosse aproveitado ao máximo, e que a brincadeira durasse até não ter fim.

Meu primo Rafa e eu, num papo cabeça nos idos da década de 80. 
Feliz aniversário :)


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Matatiratirarei


Gira, gira, giramundo. O mundo quer que eu gire mais rápido que ele, mas só giro ao dançar. Danço e liberto. Evoco minhas deusas e deuses, evoco meus planetas e astros, e giro, e esqueço quem sou; cuidado a linha, ergue os braços! E gira, gira, giramundo, ou pelo menos gira esta província que Deus nos deu.


Gira, gira, embala e roda. Conhece, sente, cheira e prova. Mas por favor, me diz onde vou parar! Se era para eu ir, porque me deixou tanto acumular?




Mudo, levo tudo de volta para de onde veio e sigo além. Mas será isso mesmo? Que quereis vós-vós? Tanto fugi do anda anda, gira gira, vai e vem, e tão alegre vim aqui encontrar um pouso-caminho. Eles queriam uma princesa matatiratiratei e apareci eu. Fiquei na roda porquanto me aceitassem, e giro e giro girando enquanto outra roda quer uma jornalista matatiratirarei. Digo que sim e vou-me embora camotim? Ou digo que não, e fico aqui meu coração?


Roda roda, gira gira, e os cabelos giram no rodar enquanto os braços abrem e fecham na prática do praticar. Que quereis, vós-vós, matatiratirarei?


imagem via http://movimentococoeciranda.blogspot.com/

sábado, 24 de setembro de 2011

Pós-operatório


Como é bom a gente perceber que aquele embrulho no estomago se foi, que aquela dor de cabeça não volta, que o apetite retorna e a convalescença está no fim. Quem precisa abrir a si mesmo, analisar, arrumar o que está errado e fechar de volta para seguir a vida sabe quão doloridas são essas auto-cirurgias. Mas como todo pós-operatório, um dia a dor diminui, o enfermo consegue levantar da cama e cada pisada no chão é menos desagradável. Quando menos percebemos, voltamos a vida com toda a vontade e com saudade do que deixamos em espera. Retomamos tudo e só cuidamos de limpar e arrumar sempre para que a cicatriz seja mínima, quase invisível.

Tratamos a nós mesmos a todo o tempo, analisamos o que se passa em nossas entranhas e em nossa cabeça, e decidimos, por A ou por B, por ir ou voltar, pelo sim ou pelo não. É um processo doloroso, mas um dia “la pena se va, se va, se fué”. Convalesço de minhas análises internas e tento colocar os dois pés no chão firmemente para tomar decisões. O momento não é propício, mas elas urgem, e fingir que não estão aí, postas, apenas causam danos colaterais. Decidir não é preciso, e por isso precisamos decidir. Abro os braços e me jogo nas mãos do destino. Penso em benefícios a longo prazo, mas lembro que a vida se faz aqui, a curto prazo, a cada segundo e agora. E penso e decido, e preciso decidir logo. O que queres? Nada nem ninguém. Por que não vens? Porque fico.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

(não) Conto


A guria chegou em casa num estado lastimável que até assustou a mãe. Sentou à mesa, remexeu o prato e não comeu. “Estou com um embrulho na boca do estômago, não dá” avisou, e foi pro quarto se olhar no espelho. Estava um lixo, mas tudo bem. No outro dia sentiu uma palpitação forte no peito, que ia e voltava toda hora. O embrulho no estomago seguia, e fome, necas. Não demorou muito naquela semana apareceram as crises de falta de ar, seguidas de suspiros longos para recuperar o fôlego. A mão trêmula e gelada foi percebida até pelo avô, que já sugeriu remédios e médicos. Quando começou a ter uma leve febre nos finais de tarde, a mãe realmente se preocupou e estava a ponto de levar a guria no doutor. Quando já estavam todos mobilizados, a irmã mais velha notou o indício de delírio que estava ali o tempo todo: apesar de todos os sintomas, apesar daquela sensação de quase morte, o sorriso nunca saiu dos lábios. Suspende o médico, ela apenas está apaixonada.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Em perspectiva


Hoje ouvi uns absurdos sobre o que as pessoas acham absurdo fazer na cama. Tá, ninguém é parâmetro de ninguém, mas a conversa – ou melhor, relato – da menina tentando me convencer que isso ou aquilo não é coisa de gente normal – e eu só ouvindo – me fez pensar em como é chato essa coisa da gente ver o mundo só pelos nossos olhos. Estou eu aqui bem bela pensando que o mundo é mundo assim filtrado por esses belos olhos verdes e, pá!, faço algo que nunca fiz e mudo completamente minha perspectiva.
.
É incrível como mínimas coisas podem afetar nossos filtros com relação ao mundo, e nos fazem entender muito mais o que se passa com o outro. Sim, todos já tivemos esse tipo de revelação, provavelmente, mas me impressiona a quantidade de gente que ainda não teve, ou teve e ignorou, porque continua achando absurdas coisas que, nem que seja pelos índices de vendas, não são tão absurdas assim. Um exemplo pra entender melhor? Artigos de sex shop, o grande absurdo para a menina que me falava.

O tempo passa, a gente muda e se vê em situações impensáveis – ou pior, muitas vezes pensadas e pensadas de forma completamente diferente, não raro carregadas de muito preconceito e julgamento. Achávamos que iriamos morrer se isso ou aquilo acontecesse; que nunca nos perdoaríamos ou viveríamos bem se fizéssemos ou deixássemos de fazer aquilo; que jamais seria possível lidar com a consciência pesada de ter ignorado aquilo outro. Quando menos esperamos, as coisas acontecem, fazemos ou deixamos de fazer, e ignoramos tantas outras, e tudo bem, a vida segue, e encostamos a cabeça à noite no travesseiro para dormir o sono dos justos. Mas uma coisa fica: a compreensão com o próximo que também é humano e também escorrega, também escolhe o caminho menos óbvio, que também faz coisas que a maioria acha absurda, mas que só quem passou entende o porquê e como é possível.

As velhas enxeridas vivenciaram pouco. As velhas enxeridas não dependem de idade nem de sexo, e estão dentro de cada um de nós, que também olhamos, apontamos e julgamos as pessoas. Porém, quanto mais experimentamos coisas diferentes, quanto mais desfazemos nossas próprias certezas, mais compreendemos a natureza alheia. E mais tolerantes com nós mesmos ficamos.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Antares


Estou com uma vontade louca de ir aos lugares que imaginei nos livros. Aquela sala em que alguém tocava um piano no fundo de uma casa em um conto do Machado me parece bem aconchegante no momento. A luz tremulante da lâmpada a gás dos idos séculos cairia bem no meu atual estado de espírito. Ou contemplar uma estrela a beira do rio que divide duas nações ao lado do fundador de uma cidade, enquanto ele se inspira nessa estrela para nomear Antares. Sua confusão torna o passatempo ainda mais divertido.

Queria ser uma criança pequena sentada à meia luz da escada do Sobrado, que em minha imaginação vi envelhecer e na qual ouvi ranger os passos da velha cega. Encontrei a praça de Santa Fé em uma foto antiga de uma cidade desse continente. Enxerguei o coreto cheio de mortos em uma cidade que não tem rio. Jacarecanga ficava no esquadro da janela do meu quarto antigamente; o rosa das paineiras sob a luz doce do março outonal que chega sempre estará impressa na minha retina e ambientará meus melhores sonhos.

Sento-me na praça em Antares e observo o coreto. Mas onde estão os mortos? Olho para os lados e não vejo nada, não vejo ninguém. O frio das escaiolas me penetra o corpo pela ponta dos meus dedos. Sinto a umidade que aqui não há; paredes escorrem anunciando temporais de São Miguel. Pelotas está em mim, e está em Satolep. Mas há tempos não faço corações em vidros embaçados.

Procuro outros rincões, que tenham verdes pastos e árvores sob as quais se possam fazer piqueniques. Espalho meus cabelos pela relva, fecho os olhos e sinto o calor amarelo do sol além deles. Sempre gostei dessa sensação de ver a luz mesmo com os olhos fechados. Sorrio. Respiro fundo e adormeço. E sob a luz de Jacarecanga vislumbro uma paineira entre cortinas de voal. O verde verdeja luxurioso na floresta tropical além. Y pescaditos de oro navegam sobre nossas cabeças. Estás conmigo, pero no encuentro la parra mientras se habla en amarras.

As amarras me sufocam, e essa opressão de um calor lancinante esmaga meu peito. Procuro tua mão firme e peço que me puxes para cima, para além. Deixas-me escapar por entre teus dedos e me sorris com tua boca fresca de ardor. Não compreendo, e procuro me agarrar em qualquer fiapo que me leve de volta. Onde estavam mesmo as paineiras, as escaiolas, os piqueniques? Os perdi. E dando voltas e voltas nesse labirinto, tudo que me chega é o cheiro putrefato dos mortos no coreto, que só piora conforme o calor aumenta. E eu que só queria apreciar aquela estrela vermelha, alfa de escorpião, à beira do rio da fronteira.


terça-feira, 13 de setembro de 2011

Direto do olho do furacão

Já que o universo resolveu me jogar no vórtice de um furacão, bem que eu podia encontrar por aí uma fenda entre o espaço e o tempo para poder dar uma pausa e curtir todas as coisas gostosinhas do mundo sem pensar nesse mundo de decisões que me espera a todo momento.

Pra que decidir tanto? Enquanto o tempo passa e o mundo anda, tudo e todos nos olham com olhos inquisidores que dizem “e aí? bora escolher, bora decidir”. E não contamos sequer com antenas que nos ajudem a perceber as condições do tempo e do espaço, nem mesmo uma dica sobre o clima – a lá se vão os grandes casacos passear nos braços esbaforidos. Ou será que as possuímos anteninhas invisíveis que de tão atrofiadas, de tão mal usadas, não as escutamos?


Procuro entender convergências astrais, consulto o tarô e estou quase apelando às runas. Meu par de antenas (por que sempre um par, por que não um trio para variar?) anda mal calibrado e não percebeu que ao falar de uma falta de rumo tal, estava na verdade prevendo a chegada de outros rumos ainda. Se não os ter me angustiava, conhecê-los me leva ao surto. Não ter opções é muito ruim; ter muitas opções com diversas e múltiplas combinações possíveis é enlouquecedor. E o maldito cérebro que adora se guiar pelo coração, esse vênus em escorpião que me comanda, faz do furacão um buraco negro.


Ó fenda espaço-tempo, deixa me refugiar em um cantinho qualquer. Levo comigo bagagem leve, só o mais gostosinho para passar o tempo que não há, e juro que saio logo, não que tempo seja problema seu. Eu vou, e volto, num piscar de olhos, que para mim pode durar um dia, um mês, uma vida. Aquela vida paralela que não há quem não queira, saber como seria a outra alternativa, ou pelo menos a chance de em uma mesma vida vivê-la duas vezes.